Home Data de criação : 09/07/01 Última atualização : 11/10/17 12:13 / 6 Artigos publicados

O CANGURU TURISTA  escrito em sábado 04 julho 2009 21:01

                                                         Bairro dos Jardincangurus, 6:30 h da manhã. O cidadão acordou assustado, com um olhar angustiado. Não ouvira o despertador tocar! Estava atrasado. Que desastre! Justamente nesta manhã, que o seu compromisso agendado era com um executivo de uma grande empresa, cliente em potencial!

Pulou da cama, pegou o telefone e, rapidamente, comunicou à secretária que iria se atrasar uns minutinhos. Que o executivo fizesse a gentileza de aguardar.
Entrou no chuveiro, barbeou-se, botou o terno, mal deu o nó da gravata e, sem mesmo tocar no café que a empregada deixara preparado sobre a mesa, precipitou-se para a rua. Quem sabe ainda desse sorte e pegasse o tânsito bom. Tiraria o atraso e não correria o risco de perder um negócios que poderia render milhões à empresa.

Ao abrir a porta, levou um susto! Um filhote de canguru vindo, sabe-se lá de onde, o aguardava, sentadinho, do lado de dentro de seu jardim! Que seria isso? Algum engraçadinho, tentando fazer uma piada de mau gosto? Algum assaltante inovador, utilizando uma nova estratégia? Um presente de um amigo australiano, enviado pelo Sedex? Não, essa hipótese era pura besteira.

Tinha que sair! Não podia perder mais tempo. Mas o olhar do canguruzinho era incrivelmente meigo! Droga! Justo com ele, uma situação inusitada dessas? Cidadão politicamente correto, divorciado, morando sozinho; defensor ferrenho da natureza, militante ecológico de carteirinha, defensor dos animais em extinção e com um negócio de milhões, pendente! Quase surtou de uma súbita esquizofrenia passageira. Parte dele precisava estar no escritório. Mas, a outra parte "tinha o dever" de cuidar "deste pobre animal", tenha lá vindo ele de onde fosse.

Depois de muita luta interior, saiu do surto. "Às favas com o negócio de milhões". Precisava cuidar de um animal abandonado à sua porta. E não era um mero cachorro. Era um canguru. Passou a mão no celular e ligou novamente para a secretária:

- Cancele o encontro com o cliente! Aliás, cancele todos os meus compromissos para hoje. Surgiu uma emergência de última hora. Não posso ir para a empresa hoje!

A secretária, eficientíssima, como sempre, anotou o recado e tratou de desemcumbir-se da missão.

Agora o problema era o que fazer com o canguru!

Botar no carro, não cabia. Além disso não sabia se o bicho mordia ou não. O que fazer? Depois de muito pensar, entrou em casa, trocou o terno por uma bermuda, camisetas e um par de mocassins.

Em seguida, abriu o porta-malas de seu carro e tirou de lá uma corda de nylon de uns três metros de comprimento. Cuidadosamente, ainda com medo de uma eventual mordida do bicho, fez um laço e enfiou-o no pescoço do canguruzinho.

"Caminhar, essa é a solução" -disse com os seus botões - "Hoje, faço minha caminhada diária mais cedo e tenho companhia. Enquanto isso, decido o que fazer com esse canguru!"

Abriu o portão e saiu para a rua. O canguruzinho, todo feliz, ia saltando a seu lado, como se fossem velhos amigos. "Até que não era tão mal assim" - pensava o nosso amigo. Andou algumas quadras, vira aqui, vira ali, sempre acompanhado por olhares curiosos.

"Que se lasquem esses enxeridos bisbilhoteiros" - "Minha prioridade, hoje, é esse canguru!"

Sem que percebesse, em poucos minutos, passeava com o canguru em plena avenida Brasil. Aconteceu de tudo: carros passavam buzinando, motoristas gritavam, "tirando uma" com a sua cara, mamães motoristas paravam o carro, obrigadas pelos filhos, que queriam ver o "canguruzinho bonitinho". O trânsito ficou complicado. Mas, ele, impávido, caminhava com o canguru todo faceiro, como se nada estivesse acontecendo.

Mas, era pura aparência. No seu íntimo, ia crescendo o temor e não podia raciocionar. Não conseguia. O que haveria de fazer com o canguru?

De repente, um carro conhecido, estacionou bem a seu lado. Era o seu vizinho e colega de profissão.

- Giba! Você enlouqueceu. O que faz aqui a estas horas, com esse canguru a seu lado?
- Nem me fale, Nestor, nem me fale! E contou ao amigo a tragicomédia daquela manhã.
- O que acha que devo fazer, Giba?

O Giba coçou o queixo (não era possuidor de um QI lá muito alto). De repente, teve uma idéia brlhante:

- Ora, Giba, é simples! Leve o bichinho para o Zoológico! Eu lhe empresto a minha Kangoo e ele vai numa boa!

-Nestor, você é um gênio, negócio feito. E lá se foram o Giba e o canguru para a casa do Nestor, que foi na frente preparar a Kangoo.

Tudo acertado, O Nestor despediu-se do amigo e foi-se para o trabalho. Mas não conseguia se livrar do problema do amigo. Passou o dia com a atenção dispersa e quase nada produziu. Até a sua secretária estranhou.

Anoiteceu. O Nestor esperou no escritório passar a hora do "rush" para voltar mais tranquilo. Quando deu 20:00 h, pegou o carro e rumou para casa. Mas, ao passar pela avenida Brasil, levou um susto:Lá estava o Giba, debaixo de uma garoa fina, caminhando com o canguru, como de manhã. "Não é possível" - "pensou" - "Será que o Giba enlouqueceu?" Parou o carro e gritou para o amigo:

- Ei, Giba? Não levou o canguru para o Jardim Zoológico?!!!

- Sim! - respondeu o Giba, já demonstrando ser "amigão" do canguru, que degustava um sorvete - e depois do Zoológico, o levei também à Cidade das Crianças, ao Circo e ao Play- Center!

E continuou caminhando debaixo de chuva com o canguru, avenida Brasil afora!

Tony Ayres

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MOLECAGENS  escrito em sábado 04 julho 2009 20:48

O jipinho da polícia entrou na rua da nossa casa com a sirene ligada, trazendo a bordo metade do destacamento da cidade: três soldados. O sargento foi logo dizendo:

- Cadê o assassino?

A molecada que rodava pneu nas imediações logo formou uma multidão, ávida por saber quem iria para a cadeia. Nos olhos de cada um havia um misto de expectativa, curiosidade, medo e diversão. Mas o sargento continuou:

- Quero saber quem de vocês é o assassino! Se ninguém abrir a boca, levo todos presos agora mesmo! Vou repetir a pergunta só mais uma vez:

- Quem é o assassino?

De repente, no meio daqueles moleques todos, meu irmão levantou a mão, corajosamente:

- Sou eu, seu sargento. Pode me levar para a cadeia.

O sargento olhou para aquele piralho miúdo, de cabelos desgrenhados e rosto sardento, parecendo um tanto decepcionado com a aparente

insignificância do criminoso.

Mas, antes de mandar colocá-lo no jipinho policial, resolveu fazer o interrogatório, ali mesmo no meio da rua, aproveitando que a audiência era grande e o exemplo da punição serviria para prevenir futuros delitos:

- Então foi você que assassinou as seis galinhas?

Referia-se à meia-duzia de penosas achadas mortas no quintal da dona Nica, a qual, já inconformada com a que tinha tido igual destino no dia anterior, ao ver mais seis, não se conformou em ver perdido, metade de seu galinheiro e correu dar parte à polícia.

- Fui eu, sim senhor- respondeu o meu irmão – dando à voz um tom menos temeroso que a princípio.

- E por que você fez isso, moleque? – prosseguiu o sargento, já sentindo o peso de sua autoridade, expresso no silêncio da platéia ao redor.

- Porque eu fiquei revoltado, seu sargento – respondeu, corajosamente, meu irmão?

- Revoltado por quê?

- Porque ontem o Filipinho atirou com o estilingue e matou uma galinha da dona Nica. Depois colocou a culpa em mim. Dona Nica veio reclamar com minha mãe e tive que dormir no telhado para não levar uma surra.

- Então resolveu se vingar...

- Não é vingança, é revolta. Fiquei revoltado, peguei o meu estilingue e matei as seis galinhas.

O sargento coçou o queixo e percorreu a multidão de moleques com o olhar. Após refletir por alguns instantes, sentenciou:

- Vá chamar sua mãe. - E olhando para os seu subordinados, ordenou ao que tinha cara de fuinha:

- Traga aqui a dona das galinhas.

Dez minutos depois, tempo em que o sargento aproveitou para fumar um cigarro e os meninos aproveitaram para apostarem entre si, sobre o que aconteceria a seguir, lá estavam, diante do policial, minha mãe e dona Nica.

- Escute aqui, minhas senhoras – disse ele numa entonação quase solene – É preciso ter muito cuidado antes de fazer uma acusação. E prosseguiu:

- Por uma não ter se certificado quem foi o verdadeiro responsável pela morte de uma galinha e pela outra ameaçar o filho a ponto de fazê-lo passar a noite empoleirado no telhado, produziu-se um menino revoltado.

Não sabem as senhoras que revolta, se não entendida a tempo, pode durar uma vida inteira?

Por esse motivo, bem merece a senhora o prejuízo da perda de uma parte de seu galinheiro – E, dirigindo à minha mãe:

- E a senhora tem coragem de deixar seu filho dormir ao relento? Com o risco de cair do telhado e ter o pescoço quebrado?

Deveria levar preso é as senhoras!

Minha mãe e dona Nica permaneceram caladas, enquanto o sargento recolheu seus comandados no jipinho, ligou o motor e foi-se embora, sob os aplausos da molecada.

Daquele dia em diante, nunca mais dona Nica reclamou de penosas e nunca mais meu irmão teve que dormir no telhado.

Vivendo e aprendendo: Nos meus tempos de moleque, até sargento de polícia ás vezes fazia papel de psicólogo.

Tony Ayres

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A CAHORRINHA APAIXONADA  escrito em sábado 04 julho 2009 12:48

Saí da casa dos meus filhos, disposto a dar uma bela caminhada.

Afinal, estava próximo ao Museu do Ipiranga, e não é todo dia que isso acontece.

Subi a Bom Pastor e, depois de suar um pouco (estou fora de forma), senti que era seguido por alguém. Fiquei alerta. Afinal de contas, com tantos assaltantes por aí, dando sopa, todo cuidado é pouco.

Fiquei um tanto desapontado. Meu potencial assaltante era uma pequena cachorrinha "poodle", de orelhas caídas, olhar de "adote-me, por favor" e coberta de sujeira, dos pés à cabeça, a tal ponto de não ser-me possível distingüir sua cor. Seria branco encardido ou grafite?

-Xô, cachorrinha! Cai fora! Não estou a fim de ser babá adotada, ainda mais por um bicho que nunca vi antes na minha vida!

Dei um safanão com a perna e ela esquivou-se e correu para longe.

"Dessa estou livre" - suspirei, aliviado. Dei uma olhadinha para trás e percebi a bichinha em meu encalço, novamente. Vi que a parada ia ser dura!

"Vou mudar de estratégia" - pensei com os meus botões. Entrei na padaria, e ela entrou junto. Saí da padaria, e ela saiu junto. Parei na banca de revistas, e ela parou junto. Decidi entrar pelo buraco de um muro que dava para um terreno baldio, e ela entrou junto. Saí de lá, e ela saiu junto.

"Droga de cachorra" - praguejei - "Gruda mais do que cola Super-Bonder!"

Decidi ignorá-la, mas ela tinha as suas manhas. Aproximou-se de mim, com os olhos tristonhos e remelentos, abanando o rabo, como que dizendo: "Seja meu dono, por favor, não vê como sou tristinha e carente?" Confesso que fiquei comovido.

Deixei ela se aproximar, e, procurando não levar em conta o meu mal estar pela sua imundície, comecei a afagar o seu pelo sujo. Ela botou a língua para fora e começou a respirar naquela alegria ofegante, própria dos cachorros, quando estão contentes.

Comecei a achar que não iria ter jeito. Sou coração mole, manteiga derretida..."Afinal" - pensei - "Um bom banho e uma bela tosa no veterinário e até que não vou me sentir tão solitário, apesar de toda a trabalheira que isso vai me dar". Decidi: iria adotá-la! Afinal de contas, não se abandona uma cachorrinha que se apaixona, assim, à primeira vista! Aliás, mais do que isso: entre todos os transeuntes, ela elegeu-me como se pai, digo, dono, adotivo!

E estava resolvida a questão!

Foi neste exato instante de decisão confirmada e sacramentada, que ela, num titubeio meu, deu o golpe.

Aproveitando-se do momento de distração, em que eu admirava um carrão esporte, que passava, ela abocanhou um pacote de batatas "Rufles", que meu filho havia me dado e que, eu, sem perceber, deixara no bolso da calça, metade para dentro e metade para fora!

Quando fui dar -me conta da situação, a danadinha já estava longe! "Pernas, para que te quero". E eu, sozinho, desamparado, enganado e iludido por uma "poodle" de olhar triste, em pleno bairro do Ipiranga!

"Pois é" - pensei comigo - "Hoje em dia, não se pode confiar nem nos cachorros de rua!".

E, literalmente, assaltado, prossegui minha caminhada até o museu do Ipiranga.



Tony Ayres

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MÉDICO DE INTERIOR  escrito em quarta 01 julho 2009 11:58

Médico jovem, recém formado, boa pinta, bom caráter e com aquele indescritível desejo de cumprir uma nobre missão, o doutor, após examinar com cuidado todas as possibilidades, resolveu que queria ser médico de interior, de cidadezinha pequena mesmo.

Decisão tomada, mãos à obra. Cheio de boa vontade, olhou o mapa do Brasil aberto sobre a cama, deu um rodopio com a mão, fechou os olhos e fez cair o dedo indicador sobre o mapa. O destino o guiaria. A cidade sobre a qual seu dedo recaísse, seria a escolhida!

Abriu os olhos para ver o resultado. Pareceu-lhe um tanto amedrontador, apesar da decisão tomada: O vilarejo “eleito” ficava bem no meio do Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, lugar para desbravadores!

Mesmo sentindo aquele friozinho percorrer-lhe a espinha, o doutorzinho não recuou: “Afinal de contas, o que sou eu? Um homem ou um saco de batatas?” – perguntou-se a si mesmo. E, convicto, reuniu seu apetrechos médicos e partiu para sua nova cidade, onde estabeleceu seu consultório.

Filho de pais abastados, acostumado a boas escolas e a um bom vernáculo, assim que os pacientes, já devidamente informados pelo velho e infalível método da propaganda “de boca em boca” começaram a disputar os lugares na sala de espera do “doutorzim”, nosso herói teve seu “batismo de fogo”.

A primeira paciente entrou aflita!

- Acalme-se, minha senhora, vamos fazer sua anamnese – disse-lhe o doutorzim, em tom de conselheiro.

- Dotô, se o senhor quer fazer “maionésia”, é pobrema do sinhô. Agora, só quero que me dê alívio desta agastura!” – respondeu a paciente em tom suplicante.

Sem a mínima noção de que seria “agastura”, o doutorzim não desanimou:

- Minha senhora, pode me dizer qual é a sua queixa?

- Dotô, tô com uma agastura que tá me matando, cá no estômbico, causa que tenho uma úrsula perfurada na diadema!

O doutor, boquiaberto, coçou a cabeça. Não entendera patavina o linguajar de sua paciente. Mas não era homem de desistir!

Levantou-se da cadeira e foi até a porta e, sem rodeios, falou alto para os demais pacientes, na sala de espera: “Sei que este é o meu primeiro dia de trabalho aqui. Mas aviso que esta consulta vai ser demorada. Quem tiver paciência para esperar, fique. Senão, volte amanhã”!

E, decidido, entrou no consultório, disposto a desvendar o mistério da estranha doença que tinha pela frente.

Aí, “coisa e tar e tar coisa” (expressão com a qual, logo, logo, ficaria familiarizado), o nosso herói empreendeu uma longa e dificílima batalha, que durou mais de meio dia.

Finalmente, lá pelas três da tarde, conseguiu descobrir que “a agastura no estômbigo, mode uma úrsula perfurada na diadema” era, trocando em miúdos (ou em bom vernáculo) “uma queimação no estômago, por causa de uma (suposta) úlcera estuporada no duodeno”.

Mais feliz do que Napoleão depois de uma batalha ganha, o dotorzim pôde inaugurar seu bloco de receituários, prescrevendo a medicação para a senhora, sua primeira paciente. Atitude que, meio constrangido deve que desistir, rasgando, em seguida, a receita: o fármaco, em questão, fazia parte do seu estoque de “amostras grátis”.

A paciente saiu satisfeita, levando uma sacolinha de quatro caixas de comprimidos e uma caixa de solução aquosa.

Ainda procurando relaxar do embate terminado, para melhor deliciar-se com o sucesso de sua consulta, olhou, displicentemente, para a sala de espera.

Lá estava, mineiramente acomodado, o seu segundo paciente que, de relance, percebeu, era mais matuto que a primeira.

Mas era homem de decisão. Endireitou os ombros e, corajosamente, quase gritou: “O próximo!

Mal sabia que outra luta começaria e só terminaria às oito da noite: o segundo paciente desejava marcar uma “operação na apênis”.

Depois de ter, finalmente, compreendido que o segundo paciente desejava, na verdade uma cirurgia no apêndice, forneceu mais algumas amostras grátis e, cansadíssimo, deu por encerrado o expediente.

Feliz da vida pelo seu primeiro dia de clínica médica exitosa, fechou o consultório e foi embora para casa, levando, embaixo dos braços um leitão e duas galinhas.

Pagamento de seus honorários!

Tony Ayres

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A VELHINHA, O TELEFONE E A PINHA  escrito em quarta 01 julho 2009 11:42

A velhinha caminhava cambaleante pela rua 7 de abril, em São Paulo.

Era no tempo em que não existiam telefones celulares.

Não tomara nenhuma bebida alcoólica, mas parecia que estava bêbada.

Olhava os prédios, as janelas dos prédios, as lojas e a multidão que caminhava. Por isso, estava tonta. Não era acostumada a nada disso.

Moradora da zona rural, numa pequena propriedade entre Jundiaí e São Paulo, chegara de trem até à Estação da Luz, com o objetivo de chegar à companhia telefônica da rua 7 de abril.

Como viera do bairro da Luz até aquela rua barulhenta e como vencera as mil peripécias para esse feito, nem ela mesmo seria capaz de explicar. Mas estava ali, e precisava encontrar a companhia telefônica.

Uma alma caridosa ajudou-a, finalmente a chegar ao seu destino. Entrou, radiante, no saguão da tão almejada empresa.

Aproximou-se da mesa de uma recepcionista, que, prontamente sentou-a numa cadeira e, com um sorriso nos lábios, fez-lhe a clássica pergunta:

- Em que posso ajudá-la, minha senhora?

A velhinha, um dos últimos exemplares do remanescente caipira das circunvizinhanças da capital paulista, respondeu-lhe em seu clássico linguajar:

- A mocinha num se preocupa cumigo, que eu não bebi não. Só tô com um pouco de bambura nas perna de vê tanto prédio arto e fartura de gente. Mais vim aqui amode comprá um apareio de telefone lá pro meu sítio.

E explicou, à sua maneira, que o marido, velho como ela. já não tinha a agilidade de antes, para ir e voltar do sítio à cidade, pois o reumatismo não deixava. Por isso, fazia-se necessário um aparelho telefônico.

- Entendi, atalhou a recepcionista - a senhora precisa de uma linha telefônica rural. Então, para que a companhia verifique se é possível instalar um telefone em seu sítio, a senhora deve levar estes papéis, preenchê-los direitinho e trazê-los novamente até aqui, juntamente com um croquis de seu sítio...

- Crô o quê, minha fia? Óia que nesses quase oitenta anos de vida, nunca ouvi falá nesse negócio...

- Calma, minha senhora, explicou, com muita educação, a recepcionista - não se preocupe com o nome. Croquis é apenas um mapinha que a senhora deverá trazer, de sua propriedade.

-Ah, bão! - respondeu com alegria a velhinha. Pois se é só isso, já vou me indo, mode providenciá tudo.

E agradecendo a gentileza da recepcionista, despediu-se, não antes de enfiar nas mão da atendente uma moeda de um real.

- Não rejeite a grojeta dessa véia, que a moça foi muito das bondosa. E, sem dar tempo para a resposta, já sem tanta "bambura", bateu em retirada.

Um mês inteiro se passou. Numa segunda-feira de manhã, eis que a velhinha entra sorridente e vem dar à mesa da mesma recepecionista, que recebeu-a, efusivamente.

- Tá tudo aqui o que me pediu, minha fia. E foi retirando os papéis da bolsa. Por último, retirou, bem lá do fundo, um objeto um tanto grande e cheio de pontas, que fez cair, pesadamente, sobre a mesa.

Diante do olhar incrédulo da recepcionista, de suas colegas de trabalho e de todos os clientes ali presentes; acuada como quem estivesse sido apanhada roubando doce de criança, a velhinha explicou:

- Ué, a moça num disse que era pra mim trazê uma pinha???!!!

Tony Ayres

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