Bairro dos
Jardin
s, 6:30 h da
manhã. O cidadão
acordou assustado, com um olhar angustiado. Não ouvira o
despertador tocar! Estava atrasado. Que desastre! Justamente nesta
manhã, que o seu compromisso agendado era com um executivo de uma
grande empresa, cliente em potencial!
Pulou da cama, pegou o telefone e, rapidamente, comunicou à
secretária que iria se atrasar uns minutinhos. Que o executivo
fizesse a gentileza de aguardar.
Entrou no chuveiro, barbeou-se, botou o terno, mal deu o nó da
gravata e, sem mesmo tocar no café que a empregada deixara
preparado sobre a mesa, precipitou-se para a rua. Quem sabe ainda
desse sorte e pegasse o tânsito bom. Tiraria o atraso e não
correria o risco de perder um negócios que poderia render milhões à
empresa.
Ao abrir a porta, levou um susto! Um filhote de canguru vindo,
sabe-se lá de onde, o aguardava, sentadinho, do lado de dentro de
seu jardim! Que seria isso? Algum engraçadinho, tentando fazer uma
piada de mau gosto? Algum assaltante inovador, utilizando uma nova
estratégia? Um presente de um amigo australiano, enviado pelo
Sedex? Não, essa hipótese era pura besteira.
Tinha que sair! Não podia perder mais tempo. Mas o olhar do
canguruzinho era incrivelmente meigo! Droga! Justo com ele, uma
situação inusitada dessas? Cidadão politicamente correto,
divorciado, morando sozinho; defensor ferrenho da natureza,
militante ecológico de carteirinha, defensor dos animais em
extinção e com um negócio de milhões, pendente! Quase surtou de uma
súbita esquizofrenia passageira. Parte dele precisava estar no
escritório. Mas, a outra parte "tinha o dever" de cuidar "deste
pobre animal", tenha lá vindo ele de onde fosse.
Depois de muita luta interior, saiu do surto. "Às favas com o
negócio de milhões". Precisava cuidar de um animal abandonado à sua
porta. E não era um mero cachorro. Era um canguru. Passou a mão no
celular e ligou novamente para a secretária:
- Cancele o encontro com o cliente! Aliás, cancele todos os meus
compromissos para hoje. Surgiu uma emergência de última hora. Não
posso ir para a empresa hoje!
A secretária, eficientíssima, como sempre, anotou o recado e tratou
de desemcumbir-se da missão.
Agora o problema era o que fazer com o canguru!
Botar no carro, não cabia. Além disso não sabia se o bicho mordia
ou não. O que fazer? Depois de muito pensar, entrou em casa, trocou
o terno por uma bermuda, camisetas e um par de mocassins.
Em seguida, abriu o porta-malas de seu carro e tirou de lá uma
corda de nylon de uns três metros de comprimento. Cuidadosamente,
ainda com medo de uma eventual mordida do bicho, fez um laço e
enfiou-o no pescoço do canguruzinho.
"Caminhar, essa é a solução" -disse com os seus botões - "Hoje,
faço minha caminhada diária mais cedo e tenho companhia. Enquanto
isso, decido o que fazer com esse canguru!"
Abriu o portão e saiu para a rua. O canguruzinho, todo feliz, ia
saltando a seu lado, como se fossem velhos amigos. "Até que não era
tão mal assim" - pensava o nosso amigo. Andou algumas quadras, vira
aqui, vira ali, sempre acompanhado por olhares curiosos.
"Que se lasquem esses enxeridos bisbilhoteiros" - "Minha
prioridade, hoje, é esse canguru!"
Sem que percebesse, em poucos minutos, passeava com o canguru em
plena avenida Brasil. Aconteceu de tudo: carros passavam buzinando,
motoristas gritavam, "tirando uma" com a sua cara, mamães
motoristas paravam o carro, obrigadas pelos filhos, que queriam ver
o "canguruzinho bonitinho". O trânsito ficou complicado. Mas, ele,
impávido, caminhava com o canguru todo faceiro, como se nada
estivesse acontecendo.
Mas, era pura aparência. No seu íntimo, ia crescendo o temor e não
podia raciocionar. Não conseguia. O que haveria de fazer com o
canguru?
De repente, um carro conhecido, estacionou bem a seu lado. Era o
seu vizinho e colega de profissão.
- Giba! Você enlouqueceu. O que faz aqui a estas horas, com esse
canguru a seu lado?
- Nem me fale, Nestor, nem me fale! E contou ao amigo a
tragicomédia daquela manhã.
- O que acha que devo fazer, Giba?
O Giba coçou o queixo (não era possuidor de um QI lá muito alto).
De repente, teve uma idéia brlhante:
- Ora, Giba, é simples! Leve o bichinho para o Zoológico! Eu lhe
empresto a minha Kangoo e ele vai numa boa!
-Nestor, você é um gênio, negócio feito. E lá se foram o Giba e o
canguru para a casa do Nestor, que foi na frente preparar a
Kangoo.
Tudo acertado, O Nestor despediu-se do amigo e foi-se para o
trabalho. Mas não conseguia se livrar do problema do amigo. Passou
o dia com a atenção dispersa e quase nada produziu. Até a sua
secretária estranhou.
Anoiteceu. O Nestor esperou no escritório passar a hora do "rush"
para voltar mais tranquilo. Quando deu 20:00 h, pegou o carro e
rumou para casa. Mas, ao passar pela avenida Brasil, levou um
susto:Lá estava o Giba, debaixo de uma garoa fina, caminhando com o
canguru, como de manhã. "Não é possível" - "pensou" - "Será que o
Giba enlouqueceu?" Parou o carro e gritou para o amigo:
- Ei, Giba? Não levou o canguru para o Jardim Zoológico?!!!
- Sim! - respondeu o Giba, já demonstrando ser "amigão" do canguru,
que degustava um sorvete - e depois do Zoológico, o levei também à
Cidade das Crianças, ao Circo e ao Play- Center!
E continuou caminhando debaixo de chuva com o canguru, avenida
Brasil afora!
Tony Ayres
O jipinho da polícia entrou na rua da nossa
casa com a sirene ligada, trazendo a bordo metade do destacamento
da cidade: três soldados. O sargento foi logo
dizendo:
Saí da casa dos meus filhos,
disposto a dar uma bela caminhada.
Médico jovem, recém formado, boa pinta, bom
caráter e com aquele indescritível desejo de cumprir uma nobre
missão, o doutor, após examinar com cuidado todas as
possibilidades, resolveu que queria ser médico de interior, de
cidadezinha pequena mesmo.







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